"No Verão de 1956, quatro investigadores norte-americanos organizaram uma conferência sobre computação, processamento da linguagem e criatividade. Convidaram outros investigadores e, durante cerca de um mês, juntaram-se a trocar ideias sobre estes temas. Ali nasceu o termo inteligência artificial, que há 50 anos procura aproximar homens e máquinas.
A ideia era ambiciosa e John McCarthy preparou-a cedo. Então professor de Matemática no Dartmouth College, em New Hampshire, nos EUA, elaborou um projecto de investigação e pediu financiamento à Fundação Rockefeller para o concretizar. Queria juntar os melhores na área da inteligência artificial, designação que estreou naquela altura.
Estávamos em Agosto de 1955 e o encontro acabou por acontecer no Verão seguinte.
Na próxima quinta-feira, Mc-Carthy voltará ao Dartmouth College, para uma conferência que celebra os 50 anos da inteligência artificial.
John McCarthy não estava sozinho. Acompanhavam-o Marvin Minsky - bolseiro que estudava matemática em Harvard e que voltará a estar ao seu lado na próxima semana -, Nathaniel Rochester, gestor de investigação na área da informação da IBM, e Claude Shannon, matemático que trabalhava nos laboratórios Bell. Os quatro organizaram a conferência que marcou o início de uma nova área de investigação.
A inteligência artificial distancia-se da informática porque usa linguagens de programação diferentes, que deixam em aberto um espaço para que a máquina possa aprender.
Não são programas fechados, determinísticos como os que se usam habitualmente nos computadores, em que uma ordem corresponde a uma resposta. São, isso sim, programas que procuram imitar o comportamento humano e que, por isso, têm de ser bastante flexíveis. Imitam as pessoas, por exemplo, na sua capacidade de falar, de entender uma língua ou decifrar uma imagem. É isso que faz com que os robôs que percorrem o solo de Marte possam desviar-se de uma pedra sem que ninguém lhes diga para fazer isso.
A conferência de Dartmouth teve sobretudo dois méritos: juntou as pessoas que nos EUA se interessavam pela inteligência artificial e identificou-a como uma nova área científica. "Foi mais uma reunião de amigos, que juntou quem se interessava por jogos como o xadrez, linguagens de programação especiais ou simulação de raciocínio", lembra Luís Moniz Pereira, director do Centro de Inteligência Artificial (Centria) da Universidade Nova de Lisboa.
John McCarthy prosseguiu a sua investigação na Universidade de Stanford e Marvin Minsky no Instituto de Tecnologia do Massachusetts (MIT), de que ambos foram fundadores. O seu percurso nunca se desviou dos propósitos do encontro que organizaram.
Lógica e imitação Minsky desenvolvera, em 1951, o primeiro simulador de redes neurais, um tipo de programa de computador inspirado no funcionamento do cérebro humano. McCarthy foi o autor da primeira linguagem de programação de computadores para inteligência artificial, baseada em lógica, a Lisp, acrónimo em Inglês de linguagem de processamento de símbolos através de listas.
O nome pouco diz a quem não é especialista, mas o objectivo é simples: pôr o computador a fazer o que os matemáticos fazem, a "raciocinar", em vez de fazer apenas cálculos e usar a lógica, que é a base da matemática. A Lisp e a Prolog são hoje as linguagens de programação mais usadas em inteligência artificial.
Mas antes da conferência de Dartmouth, já havia investigadores que acreditavam na hipótese de criar máquinas inteligentes. Em 1950, o matemático britânico Alan Turing publicou "Maquinaria de Computação e Inteligência", uma obra em que introduziu o teste de Turing. A ideia é pôr alguém a trocar mensagens de texto com uma máquina e com outra pessoa, um pouco como acontece hoje nos chats na Internet Se não for possível distinguir o homem da máquina, então esta passou no teste.
A experiência de Turing centrara-se, até então, na descodificação de dados. Durante a Segunda Guerra Mundial decifrou os códigos secretos alemães produzidos pelas máquinas Enigma. Para isso, desenvolveu um dispositivo com uma velocidade de processamento de 25 mil caracteres por segundo. Essa rapidez, que lhe permitia descodificar os códigos complexos das máquinas Enigma, terão levado Turing a acreditar que era possível pôr uma máquina a pensar.
O matemático britânico nunca chegou a ver essa ideia transformada numa área científica. Humilhado devido à sua homossexualidade, foi obrigado a sujeitar-se a tratamentos hormonais. Acabou por se suicidar em 1954, dois anos antes da conferência de Dartmouth, comendo uma maçã envenenada com cianeto.
No mesmo ano da conferência, Allen Newell e Herbert Simon, da Universidade Carnegie Mellon, na Pensilvânia, criaram um laboratório de inteligência artificial e fizeram uma demonstração do primeiro programa, o Logic Theorist.
Altos e baixos Hélder Coelho, professor do Departamento de Informática da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, considera que, nestes 50 anos, a inteligência artificial passou "por altos e baixos". Após um período de grande euforia, houve um momento mau, que levou ao fracasso de algumas empresas no final dos anos 80.
Na 12ª edição da Conferência Internacional Conjunta de Inteligência Artificial, que se realizou em Sydney, em 1991, Minsky mostrou-se "envergonhado e zangado" com a disputa entre agentes reactivos e agentes cognitivos, tal como Hélder Coelho explicava na altura ao PÚBLICO. Para Minsky, a pergunta fundamental era: "O que pode uma máquina fazer?"
Os agentes são, neste caso, programas de software com uma certa autonomia. Os reactivos respondem a um estímulo, como é o caso, por exemplo, dos programas de vigilância que activam um alarme quando detectam uma sombra. Os cognitivos, por outro lado, são capazes de elaborar um plano para resolver determinado problema. Actualmente, essas diferenças já se dissiparam, "porque não há agentes que sejam apenas uma coisa ou outra", explica Luís Moniz Pereira.
Hoje, Hélder Coelho recorda a conferência de 1991 como um momento em que se procurou "voltar às trincheiras", aos primórdios da inteligência artificial. "Um dos tópicos defendidos por Minsky era o senso comum, o estudo da forma como falamos ou como vivemos o quotidiano", diz.
Ao senso comum junta-se também o raciocínio por analogia, que permite acumular conhecimento e resolver problemas a partir de outros que já foram resolvidos. Nos últimos anos, estes temas, que Minsky abordara na década de 50, voltaram à ribalta. "Agora há mais escolas a cooperar e mais pontos de vista que encaixam uns nos outros e sabe-se que a inteligência artificial pode ser construída e realizada de diversas maneiras."
Portugal pode vir a ter laboratório associado nesta área A criação de um laboratório associado em Portugal para a área da inteligência artificial deverá ser proposta no próximo dia 21 à Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). A ideia partiu do Centro de Inteligência Artificial (Centria) da Universidade Nova de Lisboa e do Grupo de Engenharia do Conhecimento e Apoio à Decisão (Gecad), ligado ao INSTITUTO SUPERIOR DE ENGENHARIA DO PORTO (ISEP). Luís Moniz Pereira, director do Centria, explica que o objectivo é desenvolver projectos de investigação em várias vertentes da inteligência artificial, como o processamento computacional da língua natural, a bio-informática ou os sistemas cognitivos. Em Portugal, a investigação nesta área começou há mais de 20 anos.
Um grupo de investigadores que se tinha doutorado no estrangeiro fundou em 1984 a Associação Portuguesa Para a Inteligência Artificial (APPIA), que é presidida por Pedro Rangel Henriques, da Universidade do Minho. "Os investigadores portugueses têm artigos aceites nas revistas da especialidade pelo mundo fora", diz. Quanto aos 50 anos, estão a ser comemorados em Portugal com um uma exposição que se encontra patente no ISEP e um prémio lançado pela APPIA para o melhor trabalho universitário ligado à inteligência artificial. I.G.S.
CRIAÇÃO DE ROBÔS FUTEBOLISTAS OU DE CARROS AUTÓNOMOS A robótica é uma das áreas em que o uso de inteligência artificial é mais visível, e isso aplica-se tantos aos robôs que exploram o solo de Marte como aos que disputam os campeonatos de futebol robótico. Apesar de parecer apenas um jogo, o futebol disputado por robôs é uma espécie de laboratório de ensaio onde se testam várias tecnologias. Ainda no mês passado, uma equipa da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e da Universidade de Aveiro venceu o campeonato mundial de futebol robótico realizado na Alemanha, na categoria Simulação 3D. Pedro Rangel Henriques, professor na Universidade do Minho e presidente da Associação Portuguesa para a Inteligência Artificial, explica que estas competições obrigam os robôs a decidir a cada instante sobre a melhor solução.
"Têm que escolher o melhor caminho, definir uma estratégia e trabalhar em equipa, o que implica ter componentes de inteligência artificial que os tornam capazes de reconhecer uma imagem, as cores, as balizas e os adversários." A inteligência artificial tem sido também usada no sector automóvel. E que melhor exemplo do que uma corrida em que um carro é capaz de percorrer 212 quilómetros sem ser conduzido por ninguém? Foi isso que aconteceu em Outubro, no Deserto do Mojave, nos EUA, na segunda edição da corrida anual organizada pela DARPA, a agência de investigação norte-americana dedicada a projectos na área da defesa.
Cinco veículos autónomos foram capazes de concluir a corrida. O que ficou em primeiro lugar, criado na Universidade de Stanford, completou o percurso em pouco menos de sete horas. As 23 equipas que participaram juntaram várias dezenas de cientistas da área da computação, engenheiros e estudantes.
Universidade da Pensilvânia, nos EUA, que ajuda os médicos em casos de urgência, quando é preciso, por exemplo, socorrer rapidamente uma vítima de acidente. O programa junta o conhecimento de muitos médicos e ajuda-os a tomar decisões.
JOGAR XADREZ COM O COMPUTADOR Uma das áreas em que a inteligência artificial tem sido aplicada é a dos jogos de computador. Em 1997, a comunidade científica acompanhou com interesse a vitória de uma máquina sobre o melhor jogador de xadrez do mundo. Foi na Universidade Carnegie Mellon, nos EUA, que começou a ser desenvolvido o Deep Blue, computador que derrotou o campeão mundial de xadrez, Garry Kasparov. O projecto teve início na universidade com Feng-hsiung Hsu que, em 1989, passou a trabalhar na IBM. Deep Blue é, aliás, a junção de Deep Thought (pensamento profundo) e Big Blue (grande azul), a alcunha por que é conhecida a IBM. A primeira versão da máquina, de 1996, era já capaz de avaliar cerca de 200 mil posições por segundo, desempenho que veio a ser melhorado no ano seguinte, e que levou Kasparov a perder duas séries de jogos até às seis vitórias, por 3-5 e 2-5.
TRADUZIR E COMPREENDER LINGUAGENS A compreensão e tradução de línguas é uma tarefa que exige das aplicações de software mais do que a simples substituição de palavras. Exige inteligência artificial, de modo a que a máquina possa perceber o contexto e devolver um resultado aceitável. Muitos programas de tradução, tais como os que se encontram na Internet, têm ainda muitos problemas. Mas na Comissão Europeia está a ser usado o Systran, que integra várias funcionalidades de inteligência artificial e permite traduzir para as várias línguas dos Estados-membros.
SOCORRER DOENTES Na Faculdade de Ciências da Universidade Nova de Lisboa foi recentemente desenvolvido o protótipo de um programa que ajuda os médicos dentistas a fazerem os seus diagnósticos. Os dados do doente são inseridos no computador, nomeadamente a sua ficha e os sintomas de que se queixa. "O computador coloca uma série de hipóteses e vai aprendendo e reprogramando de acordo com os casos mais frequentes", explica Luís Moniz Pereira, orientador do projecto, que foi desenvolvido por Gonçalo Lopes, aluno finalista de Engenharia Informática.
Este projecto integra componentes de inteligência artificial e vai ser apresentado em Agosto, na conferência Empirically Successfiil Computerized Reasoning, que terá lugar em Seattle, nos EUA. Mais do que protótipos, existem várias soluções assentes em inteligência artificial na área da medicina."